O que a psicologia diz sobre crianças que agridem animais

Orelha morreu; e o que assusta é o fato de crianças terem sentido prazer, indiferença ou poder diante disso

O assassinato brutal do cachorro Orelha, em Santa Catarina, não é apenas um caso de maus-tratos a animais. É um alerta psicológico grave. Quando crianças ou adolescentes se unem para espancar um ser indefeso até a morte, não estamos diante de “brincadeira”, “imaturidade” ou “falta de noção”. Estamos diante de um sinal de risco emocional e social.

A psicologia é clara: a crueldade contra animais na infância é um dos mais fortes indicadores de distúrbios emocionais, falhas graves de empatia e possível escalada para violência futura.

O que leva uma criança a esse nível de agressividade?
Nenhuma criança nasce cruel. Comportamentos assim são construídos — e quase sempre refletem ambientes adoecidos.

Entre os principais fatores psicológicos estão:

 Dessensibilização à dor: crianças expostas constantemente à violência — física, verbal, emocional ou digital — perdem a capacidade de se sensibilizar com o sofrimento do outro. A dor deixa de gerar empatia e passa a gerar excitação ou indiferença.

— Falta de desenvolvimento da empatia: a empatia é aprendida, ensinada e modelada. Pais ausentes emocionalmente, relações frias, humilhações constantes ou educação baseada apenas em punição impedem esse desenvolvimento.

— Violência doméstica ou negligência: muitos agressores de animais foram, antes, vítimas. Crianças que apanham, são humilhadas ou vivem em lares agressivos podem externalizar a dor atacando alguém mais frágil.

— Influência de grupo e efeito manada: adolescentes, especialmente, podem cometer atrocidades em grupo que jamais fariam sozinhos. A ausência de limites claros e a necessidade de pertencimento anulam a consciência moral.

— Transtornos de conduta não identificados: agressividade persistente, prazer em ferir, ausência de culpa e repetição de comportamentos violentos podem indicar transtorno de conduta, condição que exige intervenção profissional urgente.

Importante dizer: não é “fase”. Não é “coisa de criança”. É sinal clínico.

O que isso revela sobre a sociedade?
Quando uma criança mata um animal, ela está dizendo, sem palavras: “Eu não aprendi a sentir a dor do outro.”

Ignorar isso é permitir que a violência amadureça. Muitos adultos violentos começaram exatamente assim — machucando animais, testando limites, sentindo poder sobre a vida.

Dicas diretas e urgentes para pais e responsáveis:

— Observe os sinais: crueldade com animais, prazer em humilhar, agressividade sem arrependimento, mentiras constantes e falta de culpa não devem ser relativizados.

— Ensine empatia de forma prática: empatia não se ensina com discurso, mas com exemplo:
Como você trata pessoas? Como fala com quem erra? Como reage à dor do outro?

— Não normalize violência: rir, minimizar ou justificar agressões (“é só brincadeira”, “todo menino é assim”) é conivência educativa.

— Imponha limites claros: crianças precisam de limites firmes e coerentes. Limite não é violência. É proteção emocional e moral.

— Controle o consumo de conteúdo: jogos, vídeos e redes que exaltam crueldade, humilhação e morte impactam diretamente cérebros em formação.

— Procure ajuda profissional imediatamente: psicólogo não é punição. É prevenção. Quanto mais cedo a intervenção, maior a chance de reestruturação emocional.

Um recado final, duro, mas necessário
Orelha morreu. Mas o que mais assusta não é apenas a morte de um animal indefeso — é o fato de crianças terem sido capazes de sentir prazer, indiferença ou poder diante disso.

Toda criança violenta foi, antes, uma criança negligenciada emocionalmente por alguém. Ignorar esses sinais hoje é criar adultos perigosos amanhã.

Proteger animais é proteger pessoas. Educar emocionalmente crianças é salvar vidas — humanas e não humanas.

Marisa Lobo atua como psicóloga e psicanalista, é pós-graduada em Psicanálise; Gestão e Mediação de Conflitos; Educação de Gênero e Sexualidade; Filosofia de Direitos Humanos e Saúde Mental; tem também habilitação para magistério superior.

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