CPI do Crime: A democracia virou um cassino

O governo trocou os votos, o relatório foi rejeitado e o padrão se repetiu pela oitava vez. Em algum momento, a desconfiança vira convicção

CPI do Crime: A democracia virou um cassino
Ministros Dias Toffoli, Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes

Você já viu uma CPI pedir o indiciamento de ministros do STF e o governo manobrar para enterrar o relatório no mesmo dia? Pois é. Aconteceu.

O relator, senador Alessandro Vieira, disse que Alexandre de MoraesDias Toffoli e Gilmar Mendes prejudicaram a própria imparcialidade no caso do Banco Master.

Nos últimos anos, o STF tomou decisões duras contra o Bolsonaro e os aliados, sempre com o argumento de defesa da democracia. Mas quando surge um caso que encosta no próprio Supremo, a sensação é outra.

escritório da esposa de Moraes recebeu 80 milhões do banco. Toffoli conduziu o caso e só se declarou suspeito depois que a PF divulgou mensagens ligando ele ao dono do banco.

Isso já seria suficiente para qualquer servidor público pedir demissão. Aqui, virou pauta de CPI.

O problema não é só o que eles fizeram.

E o que o governo fez? Trocou integrantes da comissão horas antes da votação. Saíram senadores contrários. Entraram senadores da base. Seis votos a quatro. Relatório rejeitado.

Não é a primeira vez. Essa foi a oitava CPI desde 1975 a ter o relatório rejeitado no Senado. Na fila estão também a CPI das Bets e a CPMI do INSS. O padrão começa a falar por si.

E agora, quem julga os juízes?

Mas vale fazer um exercício. E se o relatório não tivesse sido rejeitado?

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, já tinha sinalizado que não queria tocar no assunto.

E se chegasse à Justiça, quem decidiria se o processo é constitucional seria o próprio STF. É como um juiz apitando o jogo em que ele mesmo está sendo acusado de apitar mal. De qualquer forma, a desconfiança já está instalada.

Porque passa a sensação de que a democracia é rígida pra uns e flexível pra outros. Quando a regra parece flexibilizar dependendo de quem está sendo julgado, a confiança nas instituições vai embora. E demora muito para voltar.

Não é uma questão jurídica. É uma questão de fé.

O cidadão não fica só confuso. Fica indignado, desiludido e impotente. Um sistema que deveria proteger a democracia começa a parecer mais preocupado em se proteger.

A pergunta de quem acompanha isso é simples: a justiça tá funcionando?

Porque democracia não acaba só quando é atacada. Ela enfraquece quando as pessoas começam a sentir que a roleta está viciada.

E quando isso acontece, o problema não é mais o STF, o Congresso ou o Bolsonaro. O problema é que todo mundo acha que está num cassino.

Não importa quem está no poder. Quando o sistema julga a si mesmo, o resultado nasce decidido.

Oscar Filho
Portal IG